Uso de probióticos como tratamento complementar da obesidade - Blog Nutrify

Uso de probióticos como tratamento complementar da obesidade

A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta a obesidade como um dos maiores problemas de saúde pública no mundo, sendo definida pelo aumento do Índice de Massa Corporal (IMC) e biologicamente caracterizada pelo acúmulo de adipócitos nos tecidos. Apresenta etiologia multifatorial, estando relacionada a mecanismos biológicos, ambientais e neuropsicológicos. Dentre os determinantes fisiológicos do controle do peso e do apetite, destacam-se os fatores neuronais, endócrinos, adipocitários, intestinais e psicológicos. Estima-se que, em 2030, aproximadamente 1 bilhão de pessoas sejam obesas1,2,3.

A obesidade é considerada uma patologia inflamatória crônica e sistêmica de baixo grau, e está associada a uma maior propensão ao desenvolvimento de diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia, doença cardiovascular e câncer. Recentemente, agentes infecciosos também têm sido propostos, sendo associada a um perfil específico da microbiota intestinal bacteriana. Os estudos mais recentes demonstram que a microbiota intestinal presente no trato gastrointestinal humano tem um papel primordial no início e no estabelecimento da obesidade, já que afeta a obtenção de nutrientes do hospedeiro e a homeostase energética, influenciando no armazenamento de gordura nos adipócitos4,5,6,7.

Além dessas patologias associadas, outras questões podem influenciar na qualidade de vida do indivíduo, como distúrbios psicossociais, depressão, transtornos de ansiedade e alterações da imagem corporal. Essa associação de fatores confirma que o acúmulo de gordura corporal afeta significativamente a saúde mundial, além de elevar os custos econômicos e os recursos de saúde.

Diversos estudos demonstram que indivíduos magros e obesos apresentam uma composição diferente da microbiota. Essas diferenças na composição da microbiota, especialmente relacionadas à alimentação, podem aumentar a produção de citocinas pró-inflamatórias, alterando a expressão de genes do hospedeiro e induzindo a um estado patogênico capaz de facilitar o desenvolvimento das doenças crônicas não transmissíveis8,9,10.

Já é consolidado que o tratamento da obesidade envolve diferentes abordagens, como dietoterapia, atividade física e, quando necessário, o uso de fármacos. No entanto, têm-se observado os benefícios do efeito da microbiota intestinal sobre a obesidade, incluindo a melhora dos perfis lipídicos e dos marcadores inflamatórios, além da redução do peso corporal e do tecido adiposo, demonstrando ser uma abordagem promissora para prevenir e tratar a obesidade e os distúrbios relacionados10,11.

A associação entre dieta irregular, inatividade física e bactérias residentes do trato gastrointestinal humano pode causar obesidade. Estudos demonstram que a microbiota de pacientes obesos está associada com diminuição de duas divisões dominantes de bactérias, as Bacteroidetes e Firmicutes, capazes de afetar o potencial metabólico da microbiota gastrointestinal, aumentando a capacidade em extrair energia da dieta10,12.

As alterações desfavoráveis ​​da microbiota podem levar ao desenvolvimento da disbiose (desequilíbrio na comunidade microbiana devido o estado patológico), estando relacionada com a progressão de diversas doenças como obesidade, diabetes, certas formas de câncer e até ansiedade e depressão, além de causar danos na integridade da barreira intestinal, aumentando as chances de translocação de produtos bacterianos, como o LPS, um componente da superfície da membrana das bactérias gram-negativas, resultando em mediação do receptor Toll-like 4 (TLR4), promovendo ativação de respostas inflamatórias.

A microbiota intestinal influencia na obesidade devido aos vários mecanismos que são fundamentais para a homeostase e o desenvolvimento de energia. Existem evidências de que os probióticos e prebióticos podem modular a microbiota intestinal do hospedeiro de maneira positiva, sendo importantes no tratamento da obesidade4,13,14.

Outras alterações associadas à microbiota intestinal são as alergias e doenças inflamatórias intestinais, sendo cada vez mais elucidada a sua relação também com doenças cardiovasculares e dislipidemias. O LPS desempenha um importante papel na relação entre as alterações da microbiota intestinal, inflamação e os distúrbios metabólicos. Estudos relacionando a inflamação crônica de baixo grau com a obesidade indicam uma alteração da permeabilidade intestinal, aumento na absorção de LPS, ocasionando o aumento da ativação de vias inflamatórias e uma prejudicada sinalização de insulina em indivíduos obesos14,15.

O trato gastrointestinal é o primeiro órgão em contato com os componentes da dieta, sendo assim, a microbiota intestinal tem importante influência sobre a saúde local e sistêmica, podendo sua modulação adequada contribuir na diminuição do processo inflamatório, ganho de peso, aumento da adiposidade e distúrbios metabólicos13,14.

A dieta tem influência direta na composição da microbiota intestinal, onde uma dieta rica em gordura e pobre em fibras tem sido associada ao supercrescimento de microorganismos patogênicos, causando disbiose intestinal, sendo esta responsável pelo aumento da endotoxemia, caracterizada pelo aumento dos níveis de LPS circulantes e responsável por induzir a inflamação crônica de baixo grau em doenças como diabetes e obesidade, além de outros mecanismos que geram uma maior absorção de ácidos graxos e acúmulo de triglicerídeos nos adipócitos10,14.

Os probióticos são classificados como microrganismos vivos que, quando administrados em doses adequadas, conferem benefícios à saúde do hospedeiro. A utilização de probióticos no controle e na reconstrução da microbiota intestinal tem como principal objetivo aumentar o número de microrganismos benéficos e suas atividades, como a modulação da inflamação do hospedeiro. Os efeitos do uso dos probióticos no tratamento da obesidade e dos distúrbios metabólicos relacionados, incluem o aumento da função da barreira epitelial intestinal e a regulação da resposta imune do hospedeiro11,16,17.

A obesidade tem sido associada a um perfil específico da microbiota bacteriana do intestino, incluindo uma diminuição na proporção Bacteroidetes e Firmicutes e uma diminuição de Methanobrevibacter smithii. Foram encontradas associações significativas entre o aumento de alguns grupos bacterianos e a obesidade, como Lactobacillus, Staphylococcus aureus, Escherichia coli e Faecalibacterium prausnitzii. Outros grupos, no entanto, foram associados a um perfil mais magro, principalmente o Bifidobacterium12.

Alguns estudos relataram uma redução no aumento de adipócitos, consequentemente de tecido adiposo, com o consumo de algumas cepas probióticas, demonstrando a possibilidade de que os probióticos possam ter efeitos na redução da obesidade. A microbiota intestinal tem um importante papel na etiologia da obesidade e oferece uma oportunidade para prevenir ou tratar a obesidade por sua modulação terapêutica4,18.

Pessoas obesas apresentam uma menor diversidade microbiana quando comparadas com pessoas magras. Ao avaliar a microbiota de indivíduos obesos e eutróficos, os estudos perceberam uma associação entre Lactobacillus reuteri e obesidade e Lactobacillus paracasei e Lactobacillus plantarum associados aos indivíduos com peso normal. Outros estudos que avaliaram a modulação intestinal em pacientes com sobrepeso, utilizando cepas de Lactobacillus curvatus e Lactobacillus plantarum, obtiveram uma redução significativa no peso corporal, IMC, massa gorda total, percentual de gordura, circunferência da cintura e da gordura subcutânea, enquanto o grupo que não consumiu probióticos teve um aumento significativo de gordura visceral e subcutânea12,19,20,21,22.

Ao avaliar a modulação intestinal com Lactobacillus rhamnosus em indivíduos com sobrepeso e obesos, um estudo encontrou uma redução no peso corporal e na massa gorda mais evidentes nas mulheres tratadas com o probiótico do que nas mulheres tratadas com placebo. Outro estudo que avaliou o impacto nos padrões de crescimento e desenvolvimento infantil com Lactobacillus Rhamnosus GG, ATCC 53103 em crianças, por um período de 10 anos, concluiu que a alimentação probiótica durante os primeiros anos de vida foi capaz de modular a microbiota intestinal das crianças, alterando os padrões de crescimento e evitando o ganho excessivo de peso23,24.

Em um estudo que avaliou o efeito combinado de probióticos (Lactobacillus plantarum, Lactobacillus acidophilus, Lactobacillus rhamnosus, Bifidobacterium lactis, Bifidobacterium longum, Bifidobacterium breve e Streptococcus thermophilus) e fitoterápicos no tratamento da obesidade em pacientes com sobrepeso e obesos demonstrou uma grande redução no peso corporal e na circunferência da cintura, elucidando que os probióticos desempenham um papel significativo na prevenção da obesidade por uma redução na produção de LPS através da alteração da microbiota intestinal.

Um estudo semelhante avaliou a ação em mulheres obesas de uma mistura probiótica com Lactobacillus acidophilus, Lactobacillus casei, Lactococcus lactis, Bifidobacterium bifidum e Bifidobacterium lactis, o que demonstrou melhora da composição corporal, redução da adiposidade abdominal e aumento da atividade das enzimas antioxidantes7,25.

Duas cepas de Lactobacillus gasseri (SBT2055 e BNR17) demonstraram um efeito antiobesidade em diferentes estudos, podendo ser um complemento importante no tratamento da obesidade. Outro fator importante a ser considerado é que a suplementação probiótica apresentou resultados em um curto prazo (3 a 12 semanas) auxiliando na redução do peso corporal, IMC e percentual de gordura de indivíduos obesos12,18,26,27,28.

A conexão entre a microbiota intestinal e o excesso de peso é complexa. No entanto, os resultados encontrados já são um começo de que é possível se obter efeitos benéficos no tratamento da obesidade com o uso de probióticos, considerando que o desequilíbrio da microbiota intestinal pode ocasionar diversas patologias em seres humanos, como obesidade, diabetes, certas formas de câncer, ansiedade e depressão. É importante entender a relação entre a fisiologia do hospedeiro e a microbiota intestinal, já que ela seria uma nova oportunidade terapêutica no tratamento da obesidade4,29.

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