Uso de Creatina em idosos | Blog Nutrify

Uso de creatina em idosos. O que os estudos mostram?

O envelhecimento envolve uma série de alterações biológicas no organismo humano: físicas, fisiológicas e cognitivas (1). Para que se tenha um envelhecimento saudável, a nutrição adequada é indispensável.

A ‘Política Nacional sobre Pessoas Idosas’ define ‘idosos’ como indivíduos com 60 anos ou mais, mas essa classificação pode variar entre países em desenvolvimento e países desenvolvidos. Já existem dados mostrando que a proporção de idosos no mundo está cada vez maior, e a busca pela longevidade está cada vez mais em evidência (1).

Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) como diabetes tipo II, aterosclerose, doenças cardiovasculares e desnutrição estão associadas a uma piora da qualidade de vida em idosos, onde há um declínio físico e cognitivo. O declínio físico inclui perda da densidade óssea, levando ao risco de osteoporose, perda de massa muscular (miopenia) e redução da força (dinapenia), caracterizando a sarcopenia.

Idosos podem apresentar uma perda no apetite, chamada “anorexia do envelhecimento” o que dificulta a ingestão adequada de nutrientes advindos da alimentação, devido a alterações sensoriais, hormonais, saúde bucal e alterações do trato gastrointestinal, o que pode agravar os sintomas da sarcopenia (1).

À medida que a população envelhece, buscamos alternativas para melhorar essas alterações que diminuem a qualidade de vida. Já é bem estabelecido que o treinamento resistido em jovens e idosos pode aumentar a massa e a força muscular, e uma adequação do teor de proteínas da dieta pode maximizar a síntese de proteínas musculares (2).

A creatina é um suplemento muito popular e consumido por atletas para preservar ou aumentar a massa muscular, combinada a um treinamento resistido.

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Produzimos endogenamente a creatina a partir dos aminoácidos arginina, glicina e metionina, nos rins e fígado. Na alimentação ela pode ser ingerida principalmente pelo consumo de carnes bovinas, suínas e peixes ou então através da sua suplementação (3).

Há evidências sugerindo que o consumo de creatina muscular pode se alterar ao longo da vida, devido a fatores como atrofia das fibras do Tipo II, as quais possuem maior concentração de PCR em relação às fibras do tipo I, diminuição do consumo de carnes e redução da atividade física. (11)

Massa e função muscular

O treinamento resistido é a principal recomendação para o tratamento da sarcopenia em idosos, e os estudos mostram que dificilmente a creatina suplementada sozinha será eficaz na melhora da força muscular e do desempenho funcional, embora melhore alguns parâmetros da fadiga muscular (3).

A principal ação da creatina é aumentar o volume e intensidade do treinamento e então aumentar a resposta hipertrófica através de maiores adaptações do músculo esquelético (3).

A maior parte da creatina é absorvida pelo músculo esquelético,na forma de creatina livre e fosfocreatina. A creatina fornece o grupo fosfato (P) da fosfocreatina (PCr) para o ADP (adenosina difosfato), aumentando rapidamente a síntese de ATP, fornecendo mais energia aos músculos. (ADP + P = ATP) (4)

O aumento da ressíntese de ATP pode aumentar a energia disponível durante o exercício, prolongando a atividade e retardando o início da fadiga muscular (5)

Em idosos com sarcopenia ou em risco de desenvolver a doença, a suplementação de creatina pode ser uma opção muito vantajosa, principalmente se combinada com exercícios de resistência, prevenindo a perda e até aumentando o ganho de massa muscular.

A ingestão de cerca de 20g de creatina monoidratada por dia, tomadas em 4 porções de 5g, durante 5 dias, ou 3 a 5g por dia durante 30 dias, aumenta a creatina muscular em 20% (6)

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Neuroproteção

Como dito anteriormente, a maior parte de creatina encontra-se armazenada no músculo esquelético, mas há também uma parcela significativa armazenada no cérebro, podendo fornecer proteção contra distúrbios neurológicos e traumas.

O cérebro é um órgão altamente ativo metabolicamente, responsável por 20% do metabolismo, dependendo de um constante fornecimento de energia. A suplementação de creatina facilita uma constante regeneração de ATP no cérebro. (6)

O mecanismo direto pelo qual a suplementação de creatina melhora a cognição ainda não é conhecido, mas a melhor explicação é que o aumento de creatina cerebral melhora o metabolismo energético cerebral (11)

Essa capacidade de melhora da função cognitiva parece ser mais evidente em condições de déficit de creatina no cérebro que pode ser induzida por estressores agudos (exercício, privação de sono) ou condições patológicas crônicas (envelhecimento, doença de Alzheimer, depressão).

A creatina demonstrou aumentar a cognição (memória, aprendizado e desempenho) em idosos sem qualquer declínio cognitivo saliente.(7)

As doses de creatina necessárias para aumentar a creatina cerebral ainda não estão bem estabelecida, mas parecem ser maiores do que as doses comuns utilizadas para melhora de desempenho e massa muscular (6)

Sistema imune

O processo de fagocitose (um macrófago consumindo um patógeno) em macrófagos parece estar associado a uma redução aguda nas reservas de creatina fosfato. A fosfocreatina pode se esgotar durante o processo de fagocitose, sendo a creatina a principal fonte de combustível para os macrófagos (13).

Alguns estudos sugerem que a suplementação de creatina pode ser benéfica sobre a resposta imune, particularmente em doenças autoimunes e infecciosas, podendo ser considerada uma terapia adjuvante, melhorando processos pró-inflamatórios (8)

Saúde óssea

Células de osteoblastos são conhecidas por expressar creatina quinase. Um estado de energia mais alto nos osteoblastos (via maior atividade da creatina quinase ou aumento da disponibilidade de ATP) parece estar positivamente associado a maior crescimento e diferenciação, e a incubação de creatina nos osteoblastos parece ser suficiente para aumentar o estado de energia celular (12).

Alguns estudam mostraram que a suplementação de creatina exerce um efeito aditivo ao treinamento resistido na massa óssea (12)

A suplementação com creatina aumenta a PCr no músculo envelhecido permitindo que pessoas idosas aumentem o volume de treinamento e consequentemente da massa muscular, podendo fornecer tensão adicional aos ossos e estimular a formação óssea (11)

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Reabilitação médica

Além das condições aqui apresentadas, um artigo de revisão trouxe uma abordagem sobre os possíveis benefícios da suplementação de creatina sendo uma estratégia para melhorar a reabilitação do músculo e seu desuso na inatividade física e condições relacionadas à doença (10)

Condições onde a suplementação é provavelmente eficaz: Recuperação de exercícios, lesão da medula espinhal, artrite, distrofia muscular. Possivelmente eficaz: lesão aguda, imobilização, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), insuficiência cardíaca, Charcot-Marrie-Tooth (10).

Visto que essas condições podem ser mais passíveis de acometer a população idosa, a suplementação com creatina pode ser utilizada como um adjuvante, embora sejam necessárias mais pesquisas para tais condições.

Segurança

Existe uma preocupação sobre a suplementação de creatina e saúde renal e hepática. Nenhum estudo relatou algum efeito adverso renal ou hepático por marcadores sanguíneos ou urinários. Mas alguns estudos excluíram a população idosa que apresentavam alguma disfunção renal ou hepática previamente, portanto em indivíduos mais velhos que apresentam alguma disfunção nestes parâmetros, até que haja estudos sobre sua segurança, sugerimos que não suplementar com creatina.

A creatina pode aumentar os níveis de creatinina no sangue, de uma maneira que não é devido a danos nos rins. Isso pode resultar em um falso positivo em avaliações bioquímicas de danos renais quando o indivíduo suplementar creatina, sem significar nenhum dano aos rins (14)

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Conclusão

A maior parte dos estudos sobre a creatina estão relacionados ao desempenho físico, força, potência e aumento da massa magra. As demais abordagens como função cognitiva, saúde óssea, sistema imune e outras doenças ainda necessitam de mais estudos para melhor esclarecimento, embora grande parte mostre possíveis benefícios nas condições abordadas neste artigo.

Portanto a suplementação de creatina em idosos pode ser utilizada como terapia adjuvante principalmente para melhora da massa muscular e tratamento da sarcopenia associados a um treinamento resistido, e outras condições que acometem a população mais velha, sendo segura, eficaz, com um bom custo-benefício e de fácil acesso.

Referências

1 – Kaur, D., et Al., Nutritional Interventions for Elderly and Considerations for the Development of Geriatric Foods, Curr Aging Sci. 2019

2 – Phillips, S. M., Devries M., Creatine supplementation during resistance training in older adults-a meta-analysis, Med Sci Sports Exerc., 2014

3- Antonio, J. et.Al., Common questions and misconceptions about creatine supplementation: what does the scientific evidence really show? J Int Soc Sports Nutr. 2021

4 – Chillibeck, P., et. Al., Effect of creatine supplementation during resistance training on lean tissue mass and muscular strength in older adults: a meta-analysis, Open Access J Sports Med. 2017

5 – Ribeiro, F., Timing of Creatine Supplementation around Exercise: A Real Concern?, Nutrients, 2021

6- Dolan,E., Gualano, B., Rawson, E., et.Al, Beyond muscle: the effects of creatine supplementation on brain creatine, cognitive processing, and traumatic brain injury, Eur J Sport Sci, 2019

7 – Mcmorris T., et. Al., Creatine supplementation and cognitive performance in elderly individuals, Neuropsychol Dev Cogn B Aging Neuropsychol Cogn, 2007

8 – Bredahl, E., et. Al., The Role of Creatine in the Development and Activation of Immune Responses, Nutrients, 2021

9 – Roschel, et.Al, Creatine Supplementation and Brain Health, Nutrients, 2021

10 – Harmon, K., The Application of Creatine Supplementation in Medical Rehabilitation, Nutrients, 2021

11 – Gualano, B., et.Al, Creatine supplementation in the aging population effect, Aminoacids, 2016

12 – Gualano B., et.Al, Exploring the therapeutic role os creatine supplementation, Aminoacids, 2009

13- Loike, J., Kozler, V., Silvestein, S., Increased ATP and creatine phosphate turnover in phagocytosing mouse peritoneal macrophages, J Biol Chem, 1979

14- Pline, K.,Smith,C., The effect of creatine intake on renal function, Ann Pharmacother, 2005

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