Triptofano – Indicações e Estudos | Blog Nutrify

Triptofano – Indicações e Estudos [2022]

O aminoácido triptofano foi descoberto em meados de 1900, por Hopkins e Cole, que isolaram sua estrutura a partir da caseina5.

Classificado posteriormente como um dos oito aminoácidos essenciais (aminoácidos que devem ser fornecidos através da dieta), seu armazenamento tecidual é relativamente baixo e sua concentração plasmática é a mais baixa dentre todos os aminoácidos14. Fatores dietéticos influenciam diretamente em sua concentração tecidual que, por sua vez, influencia a captação pelo cérebro.

Dentre todos os aminoácidos, apenas a fração L (levógira) pode ser utilizada na síntese de proteínas e é capaz de ultrapassar a barreira hematoencefálica, com isso, sabe-se que a fração ativa desse aminoácido é o L-triptofano8.

O L-triptofano é um precursor da síntese de serotonina. A síntese de serotonina ocorre em duas etapas, e seu bom andamento é dependente da concentração de triptofano3.

A maior parte desse aminoácido está ligada à albumina plasmática, impedindo sua ultrapassagem pela barreira hematoencefálica, limitando a síntese central de serotonina6. As frações de L-triptofano que ultrapassam a barreira hematoencefálica, são hidroxiladas a 5-hidroxitriptofano, cuja etapa é a considerada limitante na síntese de serotonina6. Subsequentemente são descarboxiladas, para só então serem absorvidas pelos neurônios da rafe6.

De acordo com as Dietary Reference Intakes (DRIs), a recomendação de ingestão diária de triptofano é de 8,5mg/kg/dia.

O aminoácido é altamente biodisponível em alimentos como aveia, banana, cacau, ameixa seca, cereais integrais, queijo, frango, amendoim11.

Além síntese de serotonina, o triptofano é essencial em outras vias metabólicas, como a via da quinurenina (cujos detalhes serão abordados adiante), e em algumas outras funções do Sistema Nervoso Central (SNC), como a participação da síntese de dopamina, norepinefrina e melatonina11.

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Triptofano e humor

O principal transtorno de humor incapacitante no mundo é a depressão. Alguns mecanismos que influenciam a ocorrência do transtorno estão parcialmente elucidados, um deles é a hipótese da deficiência de monoaminas. Essa hipótese amparou diversos estudos com os principais agentes terapêuticos utilizados no tratamento da depressão: os inibidores seletivos e/ou combinados de recaptação de serotonina, cuja efetividade se dá em parte pelo aumento dos níveis sinápticos de serotonina e noradrenalina, e subsequente ativação de receptores pós-sinápticos serotoninergicos e noradrenérgicos6.

Os efeitos da depleção de triptofano e sua influência nos transtornos de humor, são amplamente estudados. Uma metanálise, que avaliou trabalhos realizados entre 1966 e 2006, postulou que o grupo de indivíduos com maior depleção de triptofano, apresentou humor depressivo mais acentuado12.

Na literatura há diversas conclusões análogas, como ilustrado em um estudo de 2001, realizado com uma amostra pequena, de apenas 10 participantes, com diagnóstico de depressão. Os achados concluíram que a correlação entre depleção de triptofano e a piora dos sintomas depressivos foi estatisticamente significativa13.

Foram realizados alguns ensaios clínicos e pré-clínicos, visando avaliar a depleção de triptofano e correlação com humor depressivo. Alguns autores discutem que, em indivíduos saudáveis e sem histórico de depressão, a depleção de triptofano não apresenta associação positiva com o transtorno de humor. No entanto, ao avaliar indivíduos previamente deprimidos em fases remissivas, a baixa do aminoácido pareceu estar correlacionada com nova agudização de sintomas6.

Sabendo que há intrínseca correlação entre os níveis de triptofano, a produção de serotonina influenciando diretamente na produção de melatonina e impactando a qualidade do sono, pode-se constatar que a ingestão deficiente de triptofano é um fator contribuinte para piora da qualidade do sono, adiamento de seu início e despertares noturnos, podendo gerar um mecanismo de retroalimentação na piora dos transtornos de humor, uma vez que a deficiência de sono pode estar relacionada a um pior prognóstico de sintomas ansiosos e depressivos.

Salienta-se que o intuito principal dos dados discutidos em literatura é estabelecer uma correlação entre a depleção dos níveis de triptofano e a baixa de serotonina ocasionando piora nos transtornos de humor, não havendo robustez que sustente a causalidade. Enfoca-se também que os dados até hoje obtidos não correlacionam ingestão dietética elevada do aminoácido com remissão e tampouco melhora dos sintomas citados, referem-se somente à sua depleção.

Via das quinureninas

Seguido da síntese proteica, a via das quinureninas é a segunda via mais importante do triptofano, sendo responsável por cerca de 90% de seu catabolismo11.

É inerente a correlação entre a via das quinureninas e a inflamação, resposta imunológica e alterações na neurotransmissão, devido aos metabólitos gerados. Sabe-se ainda que ela pode apresentar associação positiva no estabelecimento de neurodivergências, como a esquizofrenia, e demais desordens psiquiátricas, como depressão.

O metabolismo do triptofano em quinurenina é dependente da expressão da enzima indoleamina-2,3-dioxigenase (IDO1), amplamente encontrada nos tecidos, e da triptofano-2,3-dioxigenase (TDO), localizada nas células hepáticas7. É muito bem elucidado que a IDO1 é altamente induzida por citocinas inflamatórias, salientando-se o interferon gama7. Tal apontamento bioquímico evidencia que condições altamente inflamatórias irão ampliar o desvio do triptofano para quinurenina, retroalimentando as vias inflamatórias, sendo vários metabólitos da via também imunorreativos.

Estudos realizados em modelos animais, demonstram que o acúmulo central de quinurenina traz por consequência déficits cognitivos comportamentais e de memória4.

O acúmulo de quinurenina no SNC pode ocasionar certa neurotoxicidade, modulando negativamente a cognição, distúrbios de humor e contribuindo com a perpetuação de um estado de inflamação crônica de baixo grau.

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Considerações finais

O triptofano é um aminoácido não essencial, altamente biodisponível e amplamente utilizado em diversas vias bioquímicas importantes, sendo algumas delas a síntese proteica, a via das quinureninas e a via de conversão de triptofano em serotonina.

Amplamente estudado, discute-se que sua depleção pode acentuar sintomas depressivos e distúrbios de humor em indivíduos predispostos.

No entanto, até o presente momento, ainda não há robustez que embase a afirmação que a ingestão suprafisiológica, como a suplementação de triptofano, possa regular positivamente as condições citadas.

Sabe-se também que a via das quinureninas é modulada por citocinas inflamatórias, e que, sendo um metabólito com capacidade de ultrapassar a barreira hematoencefálica, seu acúmulo no SNC gera neurotoxicidade e a piora clínica dos distúrbios de humor.

Alguns autores discutem o papel do exercício físico na prevenção da neurotoxicidade, uma vez que o músculo esquelético possui um importante papel regulatório no deslocamento periférico das quinureninas, evitando seu acúmulo no cérebro.

Ainda são necessários mais estudos para que se possa estabelecer um consenso em relação à suplementação e/ou modulação de consumo, conforme dito anteriormente. No entanto, as hipóteses quanto ao equilíbrio metabólico e a importância do manejo da inflamação, devido ao seu relevante papel na via das quinureninas, são promissoras para discussões futuras.

Referências bibliográficas

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  2. Feder A, Skipper J, Blair JR, Buchholz K, Mathew SJ, Schwarz M, Doucette JT, Alonso A, Collins KA, Neumeister A, Charney DS. Tryptophan depletion and emotional processing in healthy volunteers at high risk for depression. Biol Psychiatry. 2011 Apr 15;69(8):804-7. doi: 10.1016/j.biopsych.2010.12.033. Epub 2011 Mar 5. PMID: 21377656; PMCID: PMC3941748.
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Part I. A preliminary study of a hitherto undescribed product of tryptic

digestion. J Physiol. 1901; 27:418–28

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  2. Kennedy PJ, Cryan JF, Dinan TG, Clarke G. Kynurenine pathway metabolism and the microbiota-gut-brain axis. Neuropharmacology. 2017 Jan;112(Pt B):399-412. doi: 10.1016/j.neuropharm.2016.07.002. Epub 2016 Jul 5. PMID: 27392632.
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  2. Martin KS, Azzolini M, Lira Ruas J. The kynurenine connection: how exercise shifts muscle tryptophan metabolism and affects energy homeostasis, the immune system, and the brain. Am J Physiol Cell Physiol. 2020 May 1;318(5):C818-C830. doi: 10.1152/ajpcell.00580.2019. Epub 2020 Mar 25. PMID: 32208989.
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  6. Young LS, Stoll S. Proteins and amino acids. In: Matarese LE, Gottschlich MM, eds. Contemporary Nutrition Support Practice. 2nd ed. New York: Saunders. 2003; l: p. 94–104 

           Suellen Bueno

         @suellenbueno_nutri

 

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