O consumo de alimentos ultraprocessados e desenvolvimento de câncer | Blog Nutrify

O consumo de alimentos ultraprocessados e desenvolvimento de câncer

NOVA é a classificação de alimentos que categoriza os alimentos de acordo com a extensão e a finalidade do processamento dos alimentos, e não em termos de nutrientes. Nas últimas décadas, alguma atenção tem sido dada à crescente importância do processamento de alimentos no fornecimento global de alimentos e nos padrões dietéticos, e seu papel nas doenças crônicas não transmissíveis relacionadas à dieta. A NOVA classifica todos os alimentos e produtos alimentícios em quatro grupos claramente distintos e significativos, e especifica quais alimentos pertencem a cada grupo, além de fornecer definições precisas dos tipos de processamento subjacentes a cada grupo1,2.

Os alimentos ultraprocessados, classificados de acordo com a NOVA são produtos com formulações industriais, feitos inteiramente ou majoritariamente de substâncias extraídas de alimentos, por exemplo, óleos, gorduras, açúcar, amido e proteínas; derivados de constituintes de alimentos ou sintetizadas em processo de industrialização, com base em matérias orgânicas como petróleo e carvão, por exemplo os corantes, aromatizantes, realçadores de sabor e outros aditivos3.

O que a ciência mostra?

Em um estudo realizado no Reino Unido foi verificado que quase metade da ingestão excessiva de açúcares livres da população avaliada pode ser atribuída a alimentos ultraprocessados. Os autores orientam que políticas para reduzir o consumo de açúcar devem se concentrar em minimizar o consumo de alimentos ultraprocessados e substituí-los com alternativas de alimentos não processados ou minimamente processados. O estudo contribui para um crescente corpo de evidências de que alimentos ultraprocessados são os principais contribuintes para o crescimento de doenças não transmissíveis relacionadas à dieta em todo o mundo4.

A tendência alimentar crescente, do consumo de ultraprocessados, pode estar envolvida na causa de doenças, principalmente o câncer. Os alimentos ultraprocessados muitas vezes têm um teor mais alto de gordura total, gordura saturada e adição de açúcar e sal, junto com uma densidade mais baixa de fibra e vitamina. Além da composição nutricional, contaminantes neoformados, alguns dos quais têm propriedades carcinogênicas (como acrilamida, aminas heterocíclicas e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos), estão presentes em produtos alimentícios processados tratados termicamente como resultado da reação de Maillard.

Em segundo lugar, a embalagem de alimentos ultraprocessados pode conter alguns materiais em contato com alimentos para os quais tenham sido postuladas propriedades cancerígenas e desreguladoras endócrinas, como o bisfenol A. Por fim, alimentos ultraprocessados contêm aditivos alimentares autorizados, mas controversos, como nitrito de sódio em carnes processadas ou dióxido de titânio (TiO2- pigmento branco), para o qual a carcinogenicidade foi sugerida em modelos animais ou celulares5. Alimentos ultraprocessados tendem a ser muito pobres em fibras, que são essenciais para a prevenção de doenças cardiovasculares, diabetes e vários tipos de câncer.

A ausência de fibras decorre da ausência ou da presença limitada de alimentos in natura ou minimamente processados nesses produtos. Essa mesma condição faz com que os alimentos ultraprocessados sejam pobres também em vitaminas, minerais e outras substâncias com atividade biológica que estão naturalmente presentes em alimentos in natura ou minimamente processados3.

Em um estudo prospectivo de coorte, realizado na França, foi possível associar um aumento de 10% na proporção de alimentos ultraprocessados na dieta com aumento significativo de 12% no risco geral de câncer e 11% de câncer de mama.

Os autores tentam explicar os achados relacionados à qualidade nutricional geralmente pior das dietas ricas em alimentos ultraprocessados, que tendem a ser mais ricas em energia, sódio, gordura e açúcar e pobres em fibras e vários micronutrientes em vários estudos realizados em vários países. Têm sido associados a uma resposta glicêmica mais alta e um efeito de saciedade mais baixo, a ingestão excessiva de energia, gordura e açúcar contribui para o ganho de peso e o risco de obesidade, sendo a obesidade reconhecida como um fator de risco importante para – câncer de mama, estômago, fígado, colorretal, esôfago, pâncreas, rim, vesícula biliar, endométrio, ovário, fígado e câncer de próstata (avançado) e neoplasias hematológicas da menopausa. Além disso, a maioria dos alimentos ultraprocessados, como sopas desidratadas, carnes processadas, biscoitos e molhos, tem alto teor de sal. Alimentos preservados com sal estão associados a um risco aumentado de câncer gástrico. Por outro lado, a ingestão de fibra alimentar diminui o risco de câncer colorretal, com um nível de evidência convincente, e também pode reduzir o risco de câncer de mama. Um ponto importante é que as associações entre ingestão de alimentos ultraprocessados e risco de câncer observadas neste estudo, foram estatisticamente significativas mesmo quando ajustadas para o índice de massa corporal, padrão alimentar ocidental e/ou teor de energia, gordura, açúcar e sal da dieta

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Uma segunda hipótese diz respeito à ampla gama de aditivos contidos em alimentos ultraprocessados. Embora os níveis máximos autorizados normalmente protejam os consumidores contra os efeitos adversos de cada substância individual em um determinado produto alimentar, o efeito sobre a saúde da ingestão cumulativa de todos os alimentos ingeridos e os efeitos potenciais do coquetel / interação permanecem amplamente desconhecidos. Mais de 250 aditivos diferentes estão autorizados para adição a produtos alimentícios na Europa e nos EUA. Um exemplo é o dióxido de titânio (TiO2), um aditivo alimentar comum que contém partículas em nanoescala e que é usado como agente de branqueamento ou em embalagens em contato com alimentos ou bebidas para fornecer uma melhor textura e propriedades antimicrobianas.

Estudos experimentais, conduzidos principalmente em modelos de roedores, sugerem que este aditivo pode iniciar ou promover o desenvolvimento de lesões pré-neoplásicas no cólon, bem como inflamação intestinal crônica. A Organização Mundial da Saúde e a Agência Internacional de Pesquisa do Câncer avaliaram o TiO2 como “possivelmente carcinogênico para humanos” (grupo 2B). Os efeitos de adoçantes artificiais intensos, como o aspartame, no metabolismo humano e na composição e funcionamento da microbiota intestinal também são controversos.

Outra preocupação é a formação de nitrosaminas cancerígenas em carnes contendo nitrito de sódio quando a carne é carbonizada ou cozido demais. Esses compostos N-nitroso podem estar envolvidos em causar câncer colorretal5.

Em terceiro lugar, o processamento de alimentos e, particularmente, os tratamentos térmicos produzem contaminantes neoformados (por exemplo, acrilamida) em produtos ultraprocessados, como batatas fritas, biscoitos, pão ou café. Uma meta-análise recente encontrou uma associação modesta entre a acrilamida dietética e o risco de câncer renal e endometrial em não fumantes. Além disso, a Agência Europeia de Segurança Alimentar considerou que as evidências de estudos em animais eram suficientes para classificar a acrilamida como genotóxica 5. Por fim, o bisfenol A é outro contaminante suspeito de migração das embalagens plásticas de alimentos ultraprocessados. Suas propriedades desreguladoras endócrinas levaram a Agência Europeia de Produtos Químicos a julgá-la como “uma substância de grande preocupação”. Cada vez mais evidências sugerem o envolvimento no desenvolvimento de várias doenças não transmissíveis, incluindo câncer ligado a desreguladores endócrinos5.

Um estudo regional, brasileiro, verificou que sua amostra, crianças de 6 a 12 meses de vida e de 12 a 24 meses consumiram em média 2.393 kcal e 4.054 kJ / dia, respectivamente, sendo que os alimentos processados e os ultraprocessados representaram um terço da ingestão energética da dieta. Os autores concluíram que as crianças estão sendo expostas precocemente aos alimentos processados e ultraprocessados, e essa exposição afeta de forma direta a qualidade nutricional da dieta, e por consequência o risco de desenvolvimento de doenças crônicas, principalmente o câncer.

Considerações finais

Sendo assim, é possível observar que o consumo de alimentos processados e ultraprocessados estão diretamente relacionados ao risco de desenvolvimento de câncer. Outro ponto que deve ser ressaltado é levado em consideração, é a exposição de crianças ao estilo de vida que possui maior quantidade desses alimentos.

Referências bibliográficas

  1. Monteiro CA, Cannon G, Moubarac JC et al. (2018) The UN Decade of Nutrition, the NOVA food classification and the trouble with ultra-processing.PublicHealthNutr 21, 5-17.
  2. Monteiro CA, Cannon G, Levy RB, et al. NOVA. The star shines bright. WorldNutrition. 2016;7(1-3):28-38.
  3. Rauber F, Louzada MLdC, Martinez Steele E, et al. Ultra-processed foods and excessive free sugar intake in the UK: a nationally representative crosssectional study. BMJ Open 2019;9:e027546. doi:10.1136/bmjopen-2018-027546
  4. Fiolet T, Srour B, Sellem L, Kesse-Guyot E, Allès B, Méjean C, Deschasaux M, Fassier P, Latino-Martel P, Beslay M, Hercberg S, Lavalette C, Monteiro CA, Julia C, Touvier M. Consumption of ultra-processed foods and cancer risk: results from NutriNet-Santé prospective cohort. BMJ. 2018 Feb 14;360:k322. doi: 10.1136/bmj.k322.
  5. Spaniol AM, da Costa THM, Souza AM, Gubert MB. Early consumption of ultra-processed foods among children under 2 years old in Brazil. Public Health Nutr. 2020 Nov 23:1-11. doi:10.1017/S1368980020004759.

Priscilla Goretti

@onconutri.priscillagoretti

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