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Meditação: uma atividade física para o cérebro!

A meditação pode ser caracterizada como uma prática que abrange técnicas de treinamento ao foco da atenção por um processo de autorregulação, em que através da prática, é possível desenvolver um controle dos processos atencionais. A técnica pode ser descrita como uma prática que alcança objetivos semelhantes a algumas técnicas da psicoterapia cognitiva, apesar do uso de diferentes métodos. Tanto a meditação como a psicoterapia levam à reorientação cognitiva e à diminuição de pensamentos repetitivos, de forma a levar os indivíduos a desenvolverem habilidades para lidar com os pensamentos automáticos. O que as difere é que, na prática da meditação os pensamentos que surgem à consciência não devem ser confrontados ou elaborados intencionalmente, sendo apenas observados, conduzindo com a prática o aprendizado de como não se deixar influenciar pelos mesmos e como compreendê-los como fluxos naturais1.

A palavra meditação tem origem do sânscrito, língua tradicional da Índia, e significa atenção e contemplação, a prática da meditação é capaz de criar conexão entre o corpo e mente, gerando alterações estruturais em áreas cerebrais que favorecem a melhoria das funções cognitivas e emocionais da pessoa2.

Mindfulness, o que significa?

Dentre as técnicas de meditação, o mindfulness é a prática de estar ciente de seu próprio corpo, mente, sentimentos e pensamentos para criar um estado de paz e tranquilidade. Mindfulness consiste em observar-se sem crítica, tendo compaixão por si mesmo5, sendo um treinamento que reúne vários métodos, como a respiração focada e consciência corporal promovendo um profundo estado de calma e de concentração no momento presente3.

A prática regular de mindfulness pode reduzir o estresse, a ansiedade, a depressão, a reatividade emocional e outras emoções negativas, além de aprimorar a capacidade de metacognição, inteligência emocional e bom estado físico2,3. Todos esses fatores podem ser de grande importância para alterar a relação do praticante com a alimentação4.

A meditação vem sendo utilizada em intervenções médicas complementares6. A maioria dos programas clínicos baseados nessa prática geralmente utiliza um dos dois cursos de redução de estresse – o programa de resposta de relaxamento (RR), que enfatiza a indução de um estado fisiológico relaxado, visto como o oposto da resposta ao estresse, ou o programa de redução de estresse baseado em mindfulness (MBSR), que cultiva a atenção plena e não incentiva necessariamente o relaxamento, mas propõe que uma forma de “meta relaxamento” possa surgir da aceitação, sem julgamentos, de qualquer estado corporal6.

Além de mudanças funcionais que afetam positivamente o cérebro, como a melhora da memória e da atenção, sabe-se que essa prática também pode produzir mudanças estruturais, atuando sobre a plasticidade cerebral1. Lazar et al. 2005 compararam a espessura de estruturas cerebrais de meditadores experientes com um grupo controle e encontraram uma diferença significativa em áreas relacionadas à sustentação da atenção, ínsula direita, sulcos frontais médio e superior direito e córtex, observando uma espessura maior nos praticantes experientes7. O mesmo estudo também nos mostra que a regularidade e a continuidade da prática influenciam na intensidade das respostas e que, portanto, a meditação pode produzir mudanças duradouras.

Em 2011, pesquisadores relataram na Psychiatry Research: Neuroimaging 8 que oito semanas de engajamento de meditação, resultam em diferenças no cérebro. O estudo incluiu dois grupos de pessoas que nunca meditaram, um continuou sem meditar, enquanto o outro foi colocado em um programa MBSR na Universidade de Massachusetts. Através de imagens de ressonância magnética, constatou-se que o grupo intervenção (MBSR), comparativamente ao grupo que não meditou, apresentou aumento da densidade de massa cinzenta no hipocampo, responsável por desenvolvimento do aprendizado, cognição, memória e regulação emocional, e diminuiu a densidade de massa cinzenta na amígdala responsiva à níveis elevados de ansiedade, medo, estresse e “luta ou fuga” do corpo. Os pesquisadores também observaram   que houve um aumento no córtex cingulado posterior, na junção temporal parietal e no cerebelo, influenciando diretamente na lembrança, tomada de decisão, empatia, compaixão, movimentos voluntários, postura e aprendizagem motora8.

Existe também uma relação entre a prática meditativa e a ativação do córtex pré-frontal esquerdo, o que pode estar associado a reduções de ansiedade e afeto negativo e ao aumento do afeto positivo e resiliência9,10, sugerindo que a meditação é capaz de estimular aspectos saudáveis, estando muito associada à saúde mental1.

Em um estudo randomizado recente (2021), pesquisadores associaram que indivíduos que participaram do grupo experimental também envolvidos com a MBSR fortaleceram sua função cognitiva, quando comparados ao grupo controle (HCL) e que ao longo dos 6 meses de estudo apresentaram um aumento na conectividade funcional entre a amígdala e o córtex pré-frontal no grupo intervenção11.

A regulação do comportamento alimentar e do peso corporal são dependentes de vias no sistema nervoso central (SNC), o que correlaciona mecanismos fisiológicos comportamentais com o controle do balanço energético. Essa regulação tem sido proposta para compreensão do comportamento alimentar em condições fisiológicas e patológicas12.

Ressaltando a relevância da neuroanatomia do comportamento alimentar, pesquisas baseadas em técnicas de neuroimagem demonstram a presença de alteração na atividade neural no córtex cingulado e em áreas corticais, sendo que essa atividade é regulada por determinadas estruturas, como o núcleo accumbens (NAc), amígdala e hipotálamo13.

Dentro dos modelos que explicam a regulação da ingestão alimentar são propostos dois mecanismos diferentes: o homeostático e o hedônico. O sistema homeostático abrange reguladores hormonais da fome e saciedade, como grelina, leptina e a insulina, atuantes em regiões cerebrais como o hipotálamo e o tronco cerebral, estimulando ou inibindo o apetite, mantendo assim um balanço energético adequado. O estado motivacional criado pelo consumo repetido de alimentos hiper palatáveis foi denominado de “fome hedônica”. A capacidade de se sobressair aos sinais homeostáticos, promovendo aumento de peso, faz com que o sistema hedônico seja de grande importância para o comportamento alimentar14.

O NAc é uma estrutura do sistema límbico que participa do controle de comportamentos naturais, como alimentação e exerce funções na plasticidade celular ligada ao aprendizado do apetite. Além disso, também participa de processamentos emocionais, sensoriais e corticais cognitivos com mecanismos hipotalâmicos envolvidos no balanço energético, dessa forma, interferindo no comportamento alimentar adaptativo. O sistema dopaminérgico é um dos principais sistemas de neurotransmissores desse processamento e atua como gerador do comportamento de recompensa. O aumento das sinapses dopaminérgicas pode estar associado à diminuição do controle cognitivo, intervindo na capacidade de escolha do indivíduo em seu comportamento, já que este controle envolve a “função de escolha”15.

A amígdala, estrutura com papel fundamental na regulação do comportamento alimentar, possui uma relação de modulação parcial na taxa de leptina circulante, um dos maiores hormônios reguladores da ingestão de alimentos. Por esse motivo, lesões nessa estrutura podem levar à hiperfagia15. Um estudo de 2007, sugere que a amígdala e o córtex pré-frontal (PFC) são elos principais entre a desregulação emocional e o comportamento alimentar16. Através de neuroimagem, constataram que a atividade da amígdala aumenta em resposta a imagens de alimentos mais calóricos em comparação a imagens não alimentares, em encontro com o seu papel na via de recompensa. Além disso, a ativação do PFC e amígdala é aumentada após o consumo de alimentos ricos em gordura versus alimentos com baixa densidade calórica16. O PFC está associado ao autocontrole e a diminuição da atividade do mesmo pode ter como consequência o ganho de peso em indivíduos obesos11.

Além de exercer funções essenciais nos processos de aprendizagem e memória, o hipocampo também participa do controle da alimentação, onde a ingestão dos alimentos depende da habilidade dos animais em representar na memória uma variedade de informações sobre suas experiências com os alimentos17.

Um estudo publicado no International Journal of Obesity em 2016, investigou através de ressonância magnética funcional (fMRI) a atividade cerebral regulatória, a conectividade funcional e comportamento alimentar em 43 mulheres saudáveis. As voluntárias foram submetidas a estímulos alimentares visuais e foi constatado que, durante a regulação, o comportamento alimentar se correlacionou com a atividade cerebral no putâmen esquerdo, estrutura que influencia diversos tipos de aprendizagem, a amígdala e ínsula em forma de “U invertido”, ou seja, suas atividades aumentam progressivamente até atingir um platô, se estabilizam e depois tendem a queda. A conectividade funcional entre o putâmen e o córtex pré-frontal se correlacionou positivamente com o IMC, enquanto a da amígdala não foi linear. As atividades do hipocampo direito e amígdala tiveram sua atividade diretamente proporcional à intensidade do desejo desprovido de influências reguladoras18.

No campo de pesquisas ligadas ao comportamento alimentar, uma técnica de meditação tem ganhado atenção, mais especificamente nos últimos dez anos. Fundado pela pesquisadora Jean Kristeller, o programa de Consciência Alimentar baseado em Mindfulness (MB-EAT) incorpora uma série de exercícios com alimentos, incluindo meditações de fome e saciedade, perdão e conexão com a nossa sabedoria interior21.

O MB-EAT é baseado em treinamentos de meditação consciente, prática que trabalha a capacidade básica de diminuir as reações automáticas e o autojulgamento negativo, permitindo o direcionamento da atenção para o momento presente, facilitando atividades cotidianas, inclusive o comer, e o observar como os gatilhos, como a ansiedade, desencadeia o desejo de comer, mesmo quando não há fome física21.

Estudos mostram que o uso de técnicas de meditação com o foco na alimentação auxilia indivíduos obesos com problemas de compulsão alimentar a normalizar seus comportamentos alimentares através da estabilidade do humor e regulação metabólica19. Em 2011, Kristeller et al. encontraram efeitos positivos para diminuir episódios de compulsão alimentar, melhorando o senso de autocontrole em relação ao comer e diminuir sintomas depressivos através do programa MB-EAT20.

Considerações finais

Fica evidente que a meditação vai além de uma estratégia para mudanças momentâneas do humor, no campo científico as modulações cerebrais resultantes desta prática vêm sendo estudadas, assim como suas relações com o comportamento alimentar, evidenciando uma relação direta entre os mesmos. Em contrapartida, é um assunto cientificamente recente que ainda trará novas descobertas e conclusões, sendo necessários mais estudos que correlacionam técnicas como o mindfulness com a perda de peso e demais melhoras clínicas.

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