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Inositol e suas aplicações

Devido a seus múltiplos efeitos na saúde humana, o inositol, principalmente mio-inositol e inositol hexaquis fosfato, passou a ser muito estudado nos últimos anos. Esse composto é um poliol cíclico com estrutura similar à da glicose e são bem conhecidos por serem importantes para a biologia e sinalização de células eucarióticas1, sendo amplamente relacionados a homeostase energética, atividades antioxidantes e anti-inflamatórias, além de seu papel como neurotransmissores.

O mio- inositol (mioIns) foi primeiramente considerado parte da família da vitamina B, entretanto, foi visto que sua produção ocorria de forma suficiente pela d-glicose e, assim, retirado dessa classificação1. Algumas condições fazem com que a necessidade dessa substância seja aumentada, como é o caso do aumento da idade, uso de antibióticos, ingestão de açúcar e carboidratos refinados, deficiência de sódio, resistência à insulina e diabetes tipo 1 e tipo 2 e até mesmo maior consumo de cafeína2.

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Síndrome do Ovário Policístico (SOP)

A Síndrome do Ovário Policístico (SOP) é um distúrbio endócrino complexo que possui grande impacto na saúde pública. O diagnóstico da síndrome é de exclusão, e é necessário que a paciente tenha ao menos dois dos seguintes critérios: hiperandrogenismo clínico e/ou laboratorial, oligo-amenorreia e critérios ultrassonográficos. Apesar de sua causa ser incerta, a SOP está relacionada à disfunções metabólicas importantes, como é o caso da resistência à insulina e hiperinsulinismo, diabetes mellitus tipo 2, dislipidemia, doença cardiovascular e carcinoma endometrial3.

Em uma revisão sistemática no ano de 2016, foram analisados 102 ensaios clínicos randomizados para observar os efeitos do inositol. Em conclusão, foi visto que os efeitos da suplementação com MI na melhoria de vários distúrbios hormonais e reprodutivos da SOP. Com isso, a utilização do inositol torna-se uma terapia segura e eficaz, levando em consideração a dose recomendada que varia de 200 mg a 4g de MI por dia4.

Arentz (2017)3 em sua revisão sistemática que incluiu 24 ensaios clínicos randomizados de 1406 mulheres com SOP, avaliou sete suplementos nutricionais (Ômega 3, Cromo, Selênio, Vitamina D, Vitamina D associada ao Cálcio, Complexo B e Inositol) e quatro fitoterápicos (Camellia Sinensis, Cimifuga Racemosa, Cinnamomum sp e Mentha spicata). A regularidade menstrual, uma característica definidora de interesse crítico para as mulheres com SOP, foi examinada em apenas quatro desses estudos e nenhum efeito significativo do tratamento em comparação aos controles foi encontrado. No entanto, os resultados secundários de tempo para ovulação, taxas de ovulação, hiperandrogenismo, hormônios reprodutivos e metabólicos, relação cintura/quadril, colesterol e triglicerídeos foram significativamente melhorados pelo Inositol e o Colesterol Total foi significativamente reduzido pelo Ômega 3, em comparação com os controles. Efeitos adversos leves foram encontrados para Cinnamomum sp. Porém, não houve investigações de longo prazo sobre a segurança de tais suplementações.

Recente publicação de Pundir e Colaboradores (2019)4 incluiu 12 revisões sistemáticas, sendo quatro delas avaliando a suplementação de N-acetil-cisteína, Ômega 3, Inositol e Vitamina D na reprodução, mostra que a suplementação de N-acetil-cisteína e Inositol apresenta um potencial preliminar para a melhora da fertilidade em pacientes com SOP, mas faltam evidências primárias para o resultado mais importante: a taxa de nascidos vivos destas pacientes.

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Inositol e outras aplicabilidades

Sabendo-se que o mio-inositol é um dos mediadores intracelulares do sinal de insulina e está intimamente relacionado com a sensibilidade à insulina no diabetes, seu uso passou a ser estudado na prevenção da diabetes gestacional.

O estudo em 2015 conduzido por Crawford et. al., tratou de avaliar se a suplementação dietética pré-natal com mio-inositol é segura e eficaz, tanto para a mãe quanto para o feto, na prevenção do diabetes gestacional. Com isso, obteve como resultado uma redução da incidência de 28% nas mulheres não suplementadas para entre 8% e 18% nas que receberam a suplementação de mio-inositol8.

Sabendo que os tecidos propensos a desenvolver complicações microvasculares a longo prazo devido à diabetes como o rim, nervo ciático e retina estão com estoques praticamente nulos de mio-inositol, a restauração desses níveis com suplemento dietético desempenha uma uma estratégia eficiente para prevenir ou até mesmo retardar o desenvolvimento de neuropatia, nefropatia e retinopatia diabética9.

Sendo assim, o mio-inositol demonstra-se promissor como suplemento na promoção da fertilidade feminina e melhora da sensibilidade à insulina em casos de resistência, como no caso da diabetes tipo II e síndrome do ovário policístico, e também na redução da ansiedade.

Apesar de ser muito referido como um suplemento geral para a saúde feminina, esse composto também coloca-se como eficiente na redução da ansiedade e no papel de antidepressivo, assim como algumas outras condições como transtornos do pânico e compulsão alimentar.

Suplementação

Como supracitado, para o tratamento da síndrome do ovário policístico (SOP), o mio -inositol é recomendado uma dose de cerca de 200-4.000 mg uma vez ao dia antes do café da manhã, sendo a última usada com maior frequência e obtendo maiores resultados6.

Devido a seu efeito neurológico, o inositol também é utilizado para esse fim, entretanto, necessita-se utilizar doses mais altas como a dose padrão sendo entre 14-18g diariamente. Caso o uso seja de formulação de gel, apenas 30% da mesma dose é necessária para ser equivalente6.

Sendo assim, o mio-inositol é um suplemento seguro para ingerir, sendo todos seus efeitos colaterais apenas desconforto gastrointestinal leve.

Considerações finais

Em conclusão, foi visto que o mio-inositol trata-se de um suplemento com alta eficácia no auxílio dos distúrbios hormonais e reprodutivos que ocorre na SOP, sendo um dos fatores a redução dos níveis de mio-inositol nos tecidos e aumento da degradação e eliminação pelos rins.

Além disso, sua efetividade também se aplica na prevenção do diabetes gestacional, diabetes mellitus do tipo 2 e até mesmo redução da ansiedade e no papel de antidepressivo.

Referências bibliográficas

  1. Chatree S, Thongmaen N, Tantivejkul K, Sitticharoon C, Vucenik I. Papel dos Inositóis e Fosfatos de Inositol no Metabolismo Energético. Moléculas . 2020; 25(21):5079.
  2. DiNicolantonio JJ, H O’Keefe J. Myo-inositol para resistência à insulina, síndrome metabólica, síndrome dos ovários policísticos e diabetes gestacional. Coração Aberto . 2022;9(1).
  3. Arentz, Susan, Caroline A. Smith, Jason Abbott and Alan Bensoussan. Nutritional supplements and herbal medicines for women with polycystic ovary syndrome; a systematic review and meta-analysis. Complementary and Alternative Medicine (2017) 17:500.
  4. Pundir, Jyotsna, David Charles, Luca Sabatini, Danielle Hiam, Sonia Jitpiriyaroj, Helena Teede, Arri Coomarasamy, Lisa Moran and Shakila Thangaratinam. Overview of systematic reviews of non-pharmacological interventions in women with polycystic ovary syndrome. Human Reproduction Update, pp. 1–14, 2019.
  5. Unfer V, Facchinetti F, Orrù B, Giordani B, Nestler J. Myo-inositol efeitos em mulheres com SOP: uma meta-análise de ensaios clínicos randomizados. Endocri Connect . 2017;6(8):647-658.
  6. Examine – Inositol. https://examine.com/supplements/inositol/research/
  7. Projeto Diretrizes. Associação Médica Brasileira (AMB), Conselho Federal de Medicina (CFM). Síndrome dos ovários policísticos. São Paulo: AMB/CFM; 2002.
  8. Crawford TJ, Crowther CA, Alsweiler J, Brown J. Suplementação dietética pré-natal com mio-inositol em mulheres durante a gravidez para prevenir diabetes gestacional. Sistema de banco de dados Cochrane Rev . 2015;2015(12):CD011507.
  9. Marine L. Croze, Christophe O. Soulage. Potential role and therapeutic interests of myo-inositol in metabolic diseases, Biochimie, Volume 95, Issue 10, 2013, Pages 1811-1827, ISSN 0300-9084.

Gabriela Motta

@nutrigabrielamotta

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