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A Curcumina e seu papel na saúde

Os fitocompostos são muito usados ​na prevenção e tratamento de doenças, desde os tempos antigos, em culturas de medicina alternativa, até os dias atuais. No decorrer dos anos, esses produtos oferecidos como nutracêuticos demonstraram uma grande capacidade de atuar em patologias importantes e trouxeram efeitos positivos à saúde, como nas atividades anticâncer, em doenças cardiovasculares, síndrome metabólica e hepatoproteção1,2.

Os compostos fenólicos podem ser subdivididos em grupos de acordo com a quantidade de anéis aromáticos da sua estrutura: simples ou  polifenóis (e ainda um subgrupo dos flavonóides). Eles estão presentes na maioria dos materiais vegetais e são uma parte natural da dieta humana, sendo as maiores quantidades consumidas na forma de bebidas, como vinho e chá, frutas, sucos de frutas e vegetais em geral. Esses ativos extraídos de plantas herbais possuem propriedades altamente biofuncionais, terapêuticas e grande potencial antioxidante, anti-inflamatório, e possuem interação direta nas vias de transdução de sinais3,4,5.

A curcumina, o mais importante e abundante composto polifenólico extraído do rizoma da Curcuma longa L. (cúrcuma), constitui cerca de 5% do total dos curcuminóides ativos disponíveis e é conhecida por regular a inflamação, influenciar a função metabólica e energética, interagir diretamente com os adipócitos, células pancreáticas e células musculares, auxiliando o desempenho esportivo. Na regulação de vias bioquímicas e moleculares esse ativo atua na modulação de danos musculares, fatores de transcrição, citocinas, enzimas, proliferação celular e apoptose que ocorrem no sistema imunológico6,7,8.

A cúrcuma e seus curcuminóides também são usados na fitoterapia como medicamentos tradicionais na medicina indiana (Ayurveda) e na medicina tradicional chinesa, para tratamentos da inflamação cutânea e gastrointestinal, controle de peso e má digestão9.

As dietas Mediterrânea, Indiana e Nepalesa apresentam abundantes antioxidantes presentes nos compostos bioativos e são excelentes exemplos de que a prevenção e o tratamento de doenças relacionadas ao estresse oxidativo e inflamação advêm de um consumo de bons compostos e uma base de escolhas alimentares saudáveis. “Somos o que comemos”, e mais que isso: o que digerimos e absorvemos10.

Suplementação de Curcumina

A segurança é uma preocupação quando se considera o uso de extratos ou ervas específicas como produtos nutricionais, medicinais ou de saúde. A Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos listou a curcumina como um suplemento geralmente seguro e aprovado para ingestão humana, inclusive em altas doses, sem efeitos colaterais significativos, apenas com alguns casos de irritação gástrica11.

A dose de curcumina administrada nas intervenções dos estudos encontrados variou de 150 a 6.000 mg/dia, portanto constatou-se que os efeitos da curcumina em uma população fisicamente ativa devem respeitar essas doses máximas12.

Outros estudos elaboraram  experimentos no qual compararam o efeito de três doses de curcumina (200, 400 e 1000 mg) em citocinas séricas inflamatórias. Esses autores concluíram que a dose ideal seria 400 mg / dia13.

O uso da cúrcuma como tempero é uma prática que precisa ser avaliada, pois devido ao seu alto teor de água, a cúrcuma pode ser facilmente atacada por fungos produtores de aflatoxina, causando toxicidade renal, pulmonar ou hepática. Essa possibilidade de contaminação por fungos é mais alta justamente nos países onde a produção da cúrcuma é maior e onde o clima se apresenta quente e úmido.

A suplementação de curcumina pode ser usada durante períodos de alta demanda, torneios ou eventos competitivos para acelerar a recuperação da função muscular e neutralizar o tamanho e o progresso dos sintomas associados à dor muscular induzida pelo exercício. O uso da curcumina tem sido comum também em estratégias antes e/ou após exercícios, melhorando a inflamação, o desempenho muscular e modulando efeitos antioxidantes. A utilização da curcumina como recurso ergogênico para objetivo esportivo deve ser motivo de atenção e cautela, pois o uso persistente de compostos antiiflamatórios para a recuperação podem influenciar também nas adaptações aos treinamentos14,15.

Biodisponibilidade

Estudos em humanos mostraram que, após uma administração isolada de 2 g de curcumina, os níveis séricos eram indetectáveis ​​ou muito baixos. Essa baixa biodisponibilidade ocorre pelo seu rápido metabolismo no fígado e parede instestinal16

A Piperina (1-piperoil-piperidina) é um alcalóide, o principal ativo da pimenta-do-reino ou pimenta preta (Piper nigrum Linn.) cujo o uso é comum como condimento e também em vários preparos tradicionais da medicina popular. Assim como a curcuma, também está presente na medicina indiana há cerca de 7  mil anos. A piperina apresenta atividades biológicas importantes na ação antimicrobiana, anti-inflamatória, anti parasitária, propriedades antioxidantes, entre outras17,18,19.

A piperina em administração concomitante à curcumina produziu concentrações muito mais altas que o composto utilizado individualmente, e o aumento na biodisponibilidade foi de 2.000%. Esses estudos mostram que, nas dosagens utilizadas de 20mg, a piperina aumenta a concentração sérica, a extensão da absorção e a biodisponibilidade da curcumina, sem efeitos adversos16.

Considerações Finais

Diante dos estudos e pesquisas já realizados, acredita-se que a curcumina pode ser usada com segurança como uma terapia moduladora para marcadores de inflamação. Apesar da segurança do uso da curcumina e baixos riscos de efeitos adversos, é necessário desenvolver critérios mais precisos observando sempre o tipo de curcumina administrada, a duração do tratamento e o uso concomitante com outros fitoterápicos melhorando assim a biosiponibilidade e absorção. Em especial, a piperina ganhou destaque, uma vez que proporciona uma alta biodisponibilidade do uso da curcumina em doses mais baixas.

O uso da curcumina como preparação farmacêutica mostrou-se uma boa alternativa, e não somente como tempero, evitando assim os efeitos tóxicos das aflotoxinas fúngicas. Além disso, é necessário cuidado com os atletas que são sensíveis à irritação gástrica, um dos possíveis efeitos causados pelo uso contínuo.

Apesar da menor biodisponibilidade, a eficácia terapêutica da curcumina contra várias doenças humanas inclui ação anticâncer, doenças cardiovasculares, diabetes, artrite, doenças neurológicas e a eficácia na modulação de inflamação do exercício, do estresse oxidativo, diminuição da dor e dano muscular, e também como um facilitador à recuperação rápida no pós exercício físico.

A utilização da curcumina oral gerou muitos benefícios para os indicadores fisiológicos e ergogênicos no desempenho esportivo, na resposta de força e resistência, e também mostrou efeitos positivos na composição corporal e parâmetros bioquímicos do perfil lipídico dos indivíduos analisados. Dado os vários mecanismos de ação específicos da curcumina, é importante aos profissionais atenção às prescrições e orientação sempre de forma individualizada e direcionando assim aos pacientes e atletas os reais  benefícios dessa suplementação com total segurança.

REFERÊNCIAS

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  2.     Kalaria P, Gheewala P, Chakraborty M, Kamath J. Uma revisão fitofarmacológica de Alstonia scholaris : A Panoramic herbal medicine. IJRAP. 2012.
  3.     Nagahama K., Utsumi T., Kumano T., Maekawa S., Oyama N., Kawakami J. Discovery of a new function of curcumin que aumenta sua potência terapêutica anticâncer. Sci. Rep. 2016.
  4.     Chun OK, Chung SJ, Song WO. Estimativa da ingestão alimentar de flavonóides e principais fontes alimentares de adultos norte-americanos. J Nutr. 2007.
  5.     Kennedy DO. Fitoquímicos para melhorar aspectos da função cognitiva e do estado psicológico potencialmente relevantes para o desempenho esportivo. Sports Med . 2019.
  6. Aggarwal B. B. Targeting lammation-induced obesity and metabolic diseases by curcumin and other nutraceuticals. Annual Review of Nutrition. 2010.
  7.     Alibeiki F., Jafari N., Karimi M., Peeri Dogaheh H. Potent anti-cancer effects of less polar Curcumin analogues on gástrico adenocarcinoma and esophageal scamous cell carcinoma cells. Sci. Rep. 2017.
  8.     Bradford PG . Curcumin and obesity. Biofatores. Volume 39, Edição 1. 2013.
  9.     Signh Khasla KP, Tierra M. O Caminho das Ervas Ayurvédicas. Lotus Press; Twin Lakes, WI, EUA: 2008.
  10. Wood B., Brooks A. Human evolution. We are what we ate. Nature. 1999.
  11. Kocaadam B., Şanlier N. Curcumin, an active component of turmeric (Curcuma longa), and its effects on health. Crit. Rev. Food Sci. Nutr. 2017.
  12. Fernández-Lázaro D, Mielgo-Ayuso J, Seco Calvo J, Córdova Martínez A, Caballero García A, Fernandez-Lazaro CI. Modulation of Exercise-Induced Muscle Damage, Inflammation, and Oxidative Markers by Curcumin Supplementation in a Physically Active Population: A Systematic Review. Nutrients. 2020.
  13. McFarlin B.K., Venable A.S., Henning A.L., Sampson J.N.B., Pennel K., Vingren J.L., Hill D.W. Reduced inflammatory and muscle damage biomarkers following oral supplementation with bioavailable curcumin. BBA Clin. 2016.
  14. Harty PS, Cottet ML, Malloy JK, Kerksick CM Nutricionais e estratégias de suplementação para prevenir e atenuar danos musculares induzidos por exercício: uma breve revisão. Sports Med. Abrir. 2019.
  15. Owens D.J., Twist C., Cobley J.N., Howatson G., Close G.L. Exercise-induced muscle damage: What is it, what causes it and what are the nutritional solutions? Eur. J. Sport Sci. 2019.
  16. Shoba G, Joy D, Joseph T, Majeed M, Rajendran R, Srinivas PS. Influence of piperine on the pharmacokinetics of curcumin in animals and human volunteers. Planta Med. 1998.
  17. Ferreira, W. S.; Franklin, T. N.; Lopes, N. D.; de Lima, M. E. F.; Rev. Virtual Quim. 2012, 4, 208.
  18. Hanch, C.; Sammes P. G.; Anand, N.; Contribution of Ayurvedic medicine to medicinal chemistry. In: Comprehensive Medicinal Chemistry, 1st ed, Pergamon Press: Oxford, 1990.
  19. Xu XY, Meng X, Li S, Gan RY, Li Y, Li HB. Bioatividade, benefícios para a saúde e mecanismos moleculares relacionados à curcumina: progresso, desafios e perspectivas atuais. Nutrientes . 2018.
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